quinta-feira, 7 de agosto de 2008

LISBOA QUE DESAPARECE


Não só de músicas e de capas de discos se faz este blogue. Nos seus primórdios, até deu para o dono do quiosque exibir a sua gravata “ié-ié”. Outras manias, experiências e histórias, também já por aqui passaram.

A de hoje é uma história triste: a Câmara Municipal de Lisboa, na sua reunião de 14 de Abril, indo ao encontro das leis inexoráveis da ganância, autorizou a demolição das “Galerias Ritz”, para que ali seja construído um novo edifício, com mais dez metros de altura, destinado a comércio e serviços.

As minhas memórias de infância estão povoadas de bifes com batatas fritas e ovo a cavalo. No dia dos anos, o meu Pai levava-me a comer um bife fora de casa. Se um dia quiser dizer o que é alegria alegria, festa festa, desaguarei nesses jantares de aniversário com bifes, mousse chocolate com uma metade de miolo de noz no topo.

Íamos sempre ao “Aviz”, um café que existia nos Restauradores, ao lado do Cinema Éden, onde hoje está a “Loja do Cidadão”. O Café “Aviz”, também conhecido pelo muro da lamentações, pois à sua porta reuniam-se os sportinguistas que murmuravam da então hegemonia benfiquista. Os tauromáquicos também se espalhavam pelas mesas do café.

Mais tarde conheci os bifes do “Nicola”, da “Portugália”, do “Café Império”, da “Trindade,” do “Toni dos Bifes”, perto do antigo Cinema Monumental, onde Carlos de Oliveira se encontrava com Augusto Abelaira antes de rumarem para o “Monte Carlo”, também com bifes, e onde toda uma intelectualidade ocupava as mesas fazendo tertúlias. Jovens sentados noutras mesas, ficavam a olhá-los. Também lá estive.

A multiplicação de snacks, que a partir de certa altura, começaram a aparecer em Lisboa, fizeram aparecer esse travesti de bife que ficou conhecido como “bitoque” e que se comia ao balcão.

Mas muitos desses snacks também tinham os seus bifes. Célebre o bife das “Galerias Ritz” que tinha a vantagem de fechar as suas portas pelo tarde da noite.

Mr. “Ié-Ié” lembra-me, também, os famosos gelados das “Galerias Ritz” mas o orçamento, apertadíssimo, não dava para tudo.

O snack encerrou, talvez, há uns quatro anos. Agora vai surgir a machadada final nas “Galerias Ritz”.

Lentamente, Lisboa vai sendo destruída, indiferente às manifestações de afecto dos que realmente gostam da cidade. Ninguém se quer preocupar que no snack das “Galerias Ritz” houve convívio, conspirações ingénuas, verdadeiramente ingénuas, amores, desamores e amizade, que é a última coisa que se deve perder para quem viveu um tempo, tão colectivo como aquele, um tempo à espera de…

Fica a nostalgia dos espaços perdidos. As cidades, como os homens, habitam-se de histórias, sonhos, sentimentos. Afinal parece que fomos mais felizes do que imagináramos, porque, no devagar depressa dos tempos, como escreveu Guimarães Rosa, ainda temos alguma coisa para contar.

Tempo de uma envergonhada lágrima. É assim que vamos morrendo.

Colaboração de Gin-Tonic

22 comentários:

ié-ié disse...

Eu trouxe as bruxas comigo para férias. É que ainda agora estive a comentar o (triste) encerramento das Galerias Ritz. O Hugo, em mais um excelente e comovente texto, lembra-se de eu falar nos gelados. É verdade. Eu era vizinho das Galerias, vivia numa esquina da Joaquim António de Aguiar com a Rodrigo da Fonseca. Vi nascer o Hotel. As Galerias eram um poiso, muitas vezes só para apreciar a feitura daqueles engenhosos gelados em copo gigante encimados por uma sombrinha e uma cereja que faziam a sua estreia em Portugal. Numa tinha visto semelhante coisa! Era uma delícia vê-los fazer mesmo ao pé do nariz e só isso me alimentava. É que na maior parte das vezes o orçamento não me permitia alimentar-me deles na verdadeira acepção da palavra.

Do texto (lindo) do Hugo, gostaria de acrescentar o famoso combinado e também o Monumental. Releio as cartas de amor dos anos 60 e lá está: "temos de juntar dinheiro para ir jantar ao Monumental"!

Bem hajas, Hugo!

LT

Queirosiano disse...

Muitas memórias do Ritz semelhantes às do Hugo Santos. Impossível exprimi-las melhor do que ele.

Jack Kerouac disse...

Realmente o Hugo tem o dom da escrita. Eu arriscaria sugerir que arriscasse a escrever algo mais extenso do que um texto, se é que ainda não o fez. Ou uma compilação de textos. Bem melhor do que muita "literatura" que por aí se vê editada.

gin-tonic disse...

Hugo Santos, algures por aí e na impossibilidade de comentar, pede-me para dizer a Mr. Ié-Ié e a Jack Kerouac que não entende o entusiasmo pela sua escrita. Com a idade que leva sente que tem algumas histórias para contar mas a certeza de que o faz num português medíocre menos. Mas reconhece, com a vaidade da sua modéstia, que ficou feliz com as palavras e talvez faça acompanhar a vitela assada do jantar com um "Murganheira" Bruto que lhe ofereceram pelo Natal.

daniel bacelar disse...

Caro Hugo
Não me envergonho de dizer que me vieram as lágrimas aos olhos com o teu extraordinário texto.
O Paulo tem toda a razão,devias dedicar-te mais á escrita (se é que nesta terra de "cromos" houvesse alguém que te desse a mão!!)
Eu antigamente,também fazia o tour dos cinemas de bairro,e nunca mais esqueço a desilusão que senti quando um dia á hora do jantar ouvi a seguinte noticia no telejornal.Ontem á noite o cinema Royal na Graça abriu as suas portas pela última vêz pois vai ser encerrado para dar lugar a um shopping.
E o cinema EDEN no Largo de Alcântara???
Sim EDEN,pois coitado era tão rasca e mal frequentado que os donos do verdadeiro EDEN nos Restauradores nunca ligaram.
Os ourinois ficavam logo á entrada por debaixo do ecran,(agora imaginem o odôr).
Hoje é uma churrascaria!!!
É TRISTE,pois algo de tipico foi desaparecendo como as Galeria Ritz que nos deixam tantas recordações.
Será que estamos a ficar velhos????
Acho que não!!!!
Somos tão sómente (estou a ecrever bem,não estou??)sobreviventes de uma época em que havia vergonha na cara e não tinhamos um presidente (não é o meu de certeza)que por causa dos paparazzi???? mandou fechar o espaço aéreo sobre a sua vivenda "Mariani"e zonas limitrofes.
É o tal do "Nunca me engano e raras vezes tenho dúvidas"
VIVA PORTUGAL!!!!P.Q.P

JC disse...

Meus caros amigos:
Peço desculpa por destoar, mas embora compartilhe algumas das memórias das Galeris Ritz (tb ia lá com namoradas e grupo de amigos de adolescência depois do cinema de sábado à noite), não me parece o local seja de tal importância na memória e História da cidade que justifique a sua manutenção. Muitos outros e bem mais importantes, alguns que teriam mesmo merecido melhor atenção e tratamento (e v. citam alguns) foram desta para pior sem que alguém se desse quase conta. E com eles uma parte da cidade. Tb não podemos ser demasiados conservadores: tradicionalismo é uma coisa (e eu sou tradicionalista), conservadorismo é outra bem diferente. Qualquer dia estamos a querer "restaurar" ao teatro de revista, sem perceber que este acabou porque a cidade que o gerou já não existe. Tb devo dizer que acho sempre se comeu razoavelmente mal pelas "Galerias", uns hamburgers secos e até mesmo os gelados eram mais o espalhafato do que a qualidade: para não falar do Santini, os da Av. da Igreja eram bem melhores. Mais ainda, estou um pouco farto de intervenções camarárias em sítios que vale a pena perservar" e que depois a CML (votei no A. Costa, assim que a "modos" de governo de salvação nacional, mas estou um pouco desiludido) fica com a criança nos braços sem saber o que lhes fazer (e o munícipe a pagar. É o caso do S. Jorge.

Um abraço para todos e um aceno de concordância para o Hugo pela escolha do Murganheira bruto.

Anónimo disse...

O célebre bife à robin dos Bosques e os maravilhosos hamburgers do dia, acompanhadas de uma caneca deverde à pressão....deixa saudades, mas para mim hoje em dia o melhor bife é o do Tico Tico, ao cimo da avenida da igreja

Jack Kerouac disse...

Ora mas aí é que está a arte da escrita. Eu nunca fui frequantador das galerias Ritz, sei onde ficam e conheço o edifício. E concordo que provavelmente existirão muitos outros locais que seriam de preservar, antes deste. Mas ao ler o texto que o Hugo escreveu, e a forma como o faz, fico com a sensação que este local seria quase o paraíso na terra. Muito mais do que a importância real do local, ou a beleza que não é muita. O Texto é que o transforma, está tudo na arte do escritor. Quase que consigo sentir o cheiro dos bifes ou a frescura da cerveja que lá se bebia, sem nunca lá ter ido... :)

Zeca do Rock disse...

Será que estou demasiadamente velho?

Nos meus tempos de adolescente noctívago, depois das farras de arrebenta e de haver cruzado armas com uma loira, uma morena, uma ruiva ou uma mulata, lá pelas 3 da manhã, lá ia eu em direção às Portas de Santo Antão matar a fome no restaurante "Come e Bebe". O menú que escolhia era o mesmo todos os dias: Sopa alentejana (com ovo escalfado), bife à Come e Bebe com ovo a cavalo, um jarrinho de tintol da casa, pudim flan ou mousse de chocolate, café e bagaço. Tudo isto pela módica quantia de Esc. 3$50!

Por favor, alguém me diga que se lembra do Come e Bebe, senão eu vou pensar que vivi na época dos dinossauros!

Vítor Soares disse...

Então não me lembro do "Come e Bebe"? Até me lembro que a rua antes de ser Portas de Santo Antão chamava-se Eugénio dos Santos, como rezavam os anúncios do "Come e Bebe" publicados no "Diário Popular".

Zeca do Rock disse...

Ah bom, fico muito mais aliviado!...

filhote disse...

Obrigado pela memória, Hugo. Já nem elogio o texto - a qualidade da escrita é tão evidente.

Ai, minhas Galerias Ritz!

Ai, caro senhor Mendes que me atendia a qualquer hora com um sorriso e umas charlas sobre o SLB!

Ai, suculento Banana Split!

Ai, inconfundível bife de hamburguesa!

Ai, quiosque de entrada onde comprei a primeira Rolling Stone com os "animais do antigamente" na capa!

Ai, taçinha de Bucelas!

Ai, senhores!!!

Camilo disse...

Em 1976... de passagem por cá... o meu cunhado levou-me este "Centro Comercial".
Este apontamento não fica desenquadrado. Afinal, "tudo-isto" faz parte da nossa saudade.

josé disse...

Rolling Stone? Alguém falou na minha revista fétiche?

Em que ano foi isso, filhote?

Já contei algures a história da minha relação com a revista americana.

No final do mês de Setembro de 1975, com um amigo de cá destas bandas, desandei à boleia, até Lisboa, à procura de algumas coisas, entre elas, a Rolling Stone que tinha visto em Abril desse ano ( com a capa de Columbo) e depois fiquei com vontade de comprar, sem sucesso por estas bandas.

Em Lisboa, percorri a Bertrand do Chiado ( ainda estive lá no outro dia e conserva o mesmo ambiente de grande livraria), onde a mesma era distribuida e...nada.

Vim a apanhar a capa ( com Mick Jagger e uma menção a um artigo sobre o Reggae), num acampamento por trás do estádio Universitário. Deitada fora por um inglês, certamente, porque só agora passados estes anos, verifiquei que a edição americana desse número é diferente da inglesa.

A contracapa da inglesa tem um anúncio a Nightingales and bombers dos Manfred Mann e a americana nada disso tem.

Depois de ler o magnífico texto do Hugo, deixa-me a imaginar como era muito melhor viver em Lisboa, para estas coisas, do que na província.

Lembro-me também que o melhor fino ( imperial) que jamais provei, foi na Trindade, numa certa tarde do início dos anos oitenta. E o bife do local, também merecia atenção.

Hoje em dia, sou capaz de jurar que a República da cerveja, na Parque expo, é um lugar excelente para se provar um bom bife.

Mas vocês sabem melhor.

filhote disse...

Caro José, esse exemplar da Rolling Stone foi comprado em 1981. Não me lembro do número ou mês, pois a revista não está comigo no Brasil, mas sim, armazenada em Lisboa.

Sei que foi em 1981, por que a capa destaca os Stones e a sua triunfante American Tour do mesmo ano.

Acrescento que Mick Jagger foi o grande promotor e impulsionador da Rolling Stone na sua versão britânica. É dos livros...

josé disse...

Em 1981, foi um ano de ouro, na revista Rolling Stone.

Logo o primeiro número do ano, trazia a célebre capa de John Lennon, agarrado à mulher, numa fotografia de Annie Leibowitz. Essa capa foi considerada a melhor dos últimos 40 anos, há uns anos atrás, entre todas as revistas americanas ( Esquire incluída).

Todos os números desse ano têm interesse e curiosamente, foi a partir daí que comecei a perder o interesse na revista ( embora a continuasse a comprar até aos anos noventa).

1981, no final, foi o ano em que comecei a trabalhar, em que comprei a minha primeira aparelhagem a sério ( um combo Grundig, com prato Dual e de visual interessante que me deu longas e longas horas de prazer auditivo. Foi aí que descobri o som integral dos Beatles que nunca tinha ouvido antes e também dos Moody BLues e de outros que tais, como o Mirage dos Fleetwood Mac que me impressionou pela qualidade de gravação, ou o dos Cars, ou ainda o de Kevin Ayers, That´s what you get babe).

Sweet memories are made of this

filhote disse...

Ah, José! Também sou fã do "Mirage" dos Fleetwood Mac, e dos Cars... não esquecendo os gira-discos Dual... andamos sintonizados!

josé disse...

E pronto, lá estou eu a escutar Hold on e Wish you were here, na gravação em cassete, com mais de 25 anos em cima, mas com o som ainda bem equilibrado, do vinil.

O disco LP, afinal tem prensagem Radio Triunfo. A capa é sofrível, mas o som do vinil é bem bom.
Não faço ideia como será a versão americana, original, mas este disco soa muito bem.

Na mesma cassete, misturei Ry Cooder ( de Bop till you drop. com prensagem igualmente Radio Triunfo e que não desmerece a posterior da WEA alemã) e também Kevin Ayers de That´s what you get babe.
E ainda uma canção dos ABC, de um disco Polygram, com melhor qualidade: The lexicon of love e a canção All of my heart que ouvi muitas vezes e agora vou repetir.

Mas tenho que fazer um postal sobre Ry Cooder, um dia destes, porque estou a ouvir I can´t win e soa-me a maravilha.

josé disse...

Little sister, de Ry Cooder, deste disco,Bop till you drop, leva-me outra vez aos oitenta e à experiência sonora de ouvir em stereo, esta música, que me agrada e que mistura gospel, soul, rock n´roll e country.

ié-ié disse...

República da Cerveja? Há quem goste, mas na EXPO prefiro o bife do Irish & Co.

LT

ié-ié disse...

Gelados na avenida da Igreja, sim senhor, e também nos Restauradores, onde depois foia BiMotor. Os donos (das geladarias) eram os mesmos, acho eu.

LT

filhote disse...

Eu não disse, José, eu não disse que alguns exemplares da Rádio Triunfo tinham boa prestação?

Ehehehehe